Arquivo mensal: agosto 2011

Quando os emudecidos gritam

Por: Renato Corrêa

Noite de 4 de agosto de 2011. Mark Duggan, inglês de 29 anos, é morto a tiros pela polícia em circunstâncias não esclarecidas.

Duggan era um jovem pai de família, sua esposa conta que ele idolatrava os filhos. Pessoas da mesma comunidade (em Tottenham) mostravam-no como exemplo a ser seguido.

Um tablóide logo tratou de defender a polícia: “ele tinha envolvimento com grupos ilegais, seria preso, reagiu e foi morto”.

Ao receber essa informação a comunidade se revolta. Parentes e amigos de Duggan marcham até a delegacia para pedir explicações. Focos de violência se espalham pelo bairro e, posteriormente, pela cidade.

A televisão diz que são arruaceiros. Os reacionários dizem que o assassinato de Mark não justifica mais violência. Os mais desavisados esbravejam que as lojas não têm nada com a morte do rapaz. Como não?

A história britânica, que explica isso, guarda diversas semelhanças com situações brasileiríssimas. Bairros são abandonados e servem de guetos para quem a sociedade dominadora não deseja (pobres, índios, homossexuais, negros e outras minorias), o serviço público perde presença, não há perspectiva e a falta de oportunidades assola. Tottenham é assim.

Este bairro é um entre centenas, milhares, às vezes cidades inteiras, que estão a tempos clamando por atenção. A voz de seus moradores foi apagada. Seus direitos são constantemente negados. A humanidade é colocada à prova.

Não foi a primeira vez que os emudecidos gritaram na Inglaterra

Em outubro de 1985, no mesmo bairro, uma jovem-senhora afro-caribenha, de 49 anos, sofreu um ataque cadíaco durante uma invasão policial em sua casa e morreu. A população — que na semana anterior vira, novamente em uma “busca” policial, o assassinato de outra mulher negra — revoltou-se e caminhou para o que hoje chamamos de “Broadwater Farm Riot”.

A morte de Duggan foi apenas o pavio. Jovens pobres, moradores de regiões periféricas de Londres, negros, imigrantes e tantos outros saíram às ruas. Carros foram queimados, lojas saqueadas e a polícia foi enfrentada.

Baderneiros, criminosos, oportunistas? A mídia diz, mas ela sempre diz o que lhe convém, mesmo sem dever, afinal ela exerce um papel considerável na formação de opinião e, com essa força, direciona os confrontos para onde mais lhe será útil. Isso não muda de acordo com o continente: a grande mídia SEMPRE defende interesses políticos nefastos.

Até quando tentaremos calar as pessoas que sofrem com os problemas que criamos? Como dito: Mark Duggan foi apenas o pavio. NÓS enchemos o barril de pólvora.
Pólvora de preconceito, medo e isolamento. Pólvora de políticas segregacionistas. Pólvora de uma dominação — que está por cair.

Atenção! É hora de pararmos de pensar em como baixar a febre. Febre nunca foi O problema, o problema é o que causa a febre.
Não podemos perder tempo imaginando como passar por um protesto, se devemos punir ou não e como faremos isso.
Temos que unir nossos esforços numa discussão mais ampla, entender o motivo pelo qual ainda insistimos num modelo político/econômico falho, que causa desigualdade, alimenta preconceitos e violência.

Eles não estão fazendo arruaça ou baderna. Eles estão gritando. Gritando por seus direitos. Gritando pela liberdade que lhes fora roubada. Eles gritam contra a opressão.

Um senhor, com visão de mundo absurdamente mais apurada que a nossa, deu o recado: “todos foram avisados de algo muito sério acontecendo” e quando questionado sobre os protestos, bradou: “Eu não chamo isso de baderna. Chamo de INSURREIÇÃO…”

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A Ponte

Por: Renato Corrêa

Vídeo fantástico.
Retrata (e dialoga com possibilidades) os problemas da desigualdade social e preconceito.

É conhecido, para os que tem o mínimo poder de observação, que existem duas zonas oeste e sul em São Paulo. A divisão geográfica, marcada pela presença do rio Pinheiros, reflete também uma divisão econômica.

A partilha é simples: o mundo é diferente da ponte pra cá.

“Não adianta querer, tem que ser, tem que pá,
O mundo é diferente da ponte pra cá”

O acesso aos bairros periféricos é feito ao cruzar a marginal Pinheiros e seu rio. As pontes são largas, mas parecem impedir o acesso do poder público. Faltam escolas, hospitais, lazer e segurança.

Rio Pequeno, Zona Oeste. Foto de André Bonacin

Lapa, Zona Oeste. Google Imagens. Parece que estar do lado direito do rio faz a grama crescer mais verde... :)

O filme se concentra na zona sul, contando, enquanto nos faz refletir sobre as questões propostas, a história da “Casa do Zezinho“, ONG localizada entre os bairros do Jardim Ângela, Parque Santo Antônio e Capão Redondo.

Sem mais. Comentar qualquer coisa é chover no molhado. Assistam!

“A PONTE” 2006 / Direção: Roberto T. Oliveira e João Wainer

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Samba no clero?

Samba no Clero, por que não?

Aqui se discute filosofia em arquibancada de estádio, sushi é espetado no hashi, ouve-se rap e bossa nova.

Não sou nada, por isso posso ser tudo.
Qualquer tentativa de explicar seria um atentado. Explicar é definir, definir, por sua vez, apenas limita as possibilidades.

E todos os erros que poderíamos ter cometido?

Aqui é um lugar para cair em contradição. Uma ode à confusão.